Perdão a demora, não sabia por onde começar.

Faz tanto tempo que não te escrevo, que já não me lembro qual a melhor forma de começar essa carta. Deveria colocar uma fala amigável com termos queridos e extremamente convencionais? Ou você preferiria que eu fosse mais direta e colocasse um “Ei, tudo certinho por aí?”? Agora acho que não vai adiantar muito, afinal, ao receber essa carta, você irá se deparar com a minha indecisão quanto à uma breve saudação e já entenderá porque a demora em te escrever — já peço perdão, não sabia por onde começar.

Pode parecer repetitivo, mas eu sinto muitas saudades de você, pensei que hoje eu estaria melhor e mais controlada, porém a cada terapia que eu faço, mais saudades sinto de ti. E mais vezes tenho chorado por esse mesmo motivo.

Isso começou antes da minha terapia começar, pelo que me recordo foi em meados de 2019, numa sala de cinema, assistindo Vingadores Ultimato. Eu chorei tanto de saudades, que não conseguia respirar, tudo parecia injusto demais, complicado demais e complicado demais. Na altura estava em Portugal, usufruindo de um cinema que pausava os filmes na metade, dando um tempo para as pessoas irem ao banheiro e comprar mais comida (era horrível, vale pontuar. A segunda vez de maior saudade foi em 2021, mais uma vez no cinema, mas dessa vez assistindo Homem Aranha – Sem volta para casa. Nesse dia, enquanto as pessoas gritavam de alegria e comemoração, eu tinha a maior crise de choro em anos, o que deixou Vinícius em choque, sem reação extremamente preocupado — aqui entra um lembrete para eu te escrever uma carta apenas sobre ele, notei que na última ele ainda não estava em minha vida, então você não sabe que somos casados há 3 anos — e me fez parar na casa do tio Juninho, que seria o único a entender exatamente a dor e conseguir me consolar com um abraço físico de pai.

Depois disso, dei uma pausa nos choros, então vale te contar um pouco tudo que rolou desde a última carta, né?

Após 3 anos morando em Portugal, conhecendo lugares legais, pessoas incríveis, passando por uma pandemia mundial que levou muitas pessoas (inclusive, se não fosse por Deus, mamãe e Letty teriam ido nessa), voltamos a morar no Brasil! Sim, a vida e suas surpresas de caixinha, que nos viram de cabeça para baixo, mas nos fazem lembrar que o tempo de Deus é perfeito, que Ele age de forma que não conseguimos compreender e que Ele estando à frente da situação tudo segue andando. E posso falar com certeza (pelo menos por mim): foi uma das melhores coisas para nossa família!

Voltei a estar mais presente com nossa família, ingressei de novo na UFES (e saí novamente), me tornei supervisora em uma empresa mega conhecida e, para melhorar toda a história, me casei, comprei minha casa e um carro lindinho. A bebê da casa se tornou uma excelente Técnica em Química, trabalha numa mega empresa e está noiva, se preparando para casar esse ano. Penso que se estivéssemos em terras europeias, talvez isso tudo não estivesse acontecendo.

Agora tenho um desabafo para fazer: eu não consegui dar conta de tudo mais, eu tentei, prometo de coração, mas as coisas começaram a ficar mais difíceis para minha mente e coração aguentarem, as preocupações da vida adulta, trabalho e igreja, começaram a acumular e eu comecei a ver que nem tudo poderia ser feito por mim. Nessa parte do processo, graças a bastante terapia, choros e orações, percebi que eu sou só uma filha mais velha, que estava tentando cuidar da mãe e irmã, mas esquecendo de cuidar também de si mesma. Então tenho pedido ajuda mais vezes, quando não é para o Vinícius ou pessoas próximas, é para Deus, afinal, tem coisas que apenas Ele consegue fazer.

E é por isso que deixei para falar da dona Dhannia por agora, porque sigo a vendo como a mulher maravilhosa que citei na outra carta, a que me inspira e me faz ter vontade de seguir trilhando caminhos maiores e melhores, mas ela não se vê assim. Acho que ela sente muito a sua falta, não foi justo ter deixado ela só, pois isso faz com que ela queira partir também, porém Lettícia e eu não queremos isso, a dor segue grande demais para vir novamente. Sei que vocês passaram por alguns momentos doidos, mas também tiveram os momentos bons, de amor, carinho, amizade e cumplicidade, alguns deles ela partilha conosco com muita nostalgia, outros dá para perceber que seguem guardados apenas na memória e coração dela.

Da última vez comentei que Lettícia tinha vivido mais tempo sem você do que com você, e, infelizmente — ou felizmente, não sei —, chegou a minha vez, estamos há 17 anos sem escutar a sua voz, sem ouvir as suas piadas de tiozão, sem ver a sua emoção vendo um filme top ou jogando um jogo em alta. São 17 anos sem poder te abraçar, temendo esquecer expressões e particularidades suas que só existem em nossa memória, que câmera nenhuma captou e salvou. Eu estou com 28 anos, daqui 6 anos terei a idade que você tinha ao partir e isso me assombra mais do que consigo expressar em palavras.

Pai, esses dias eu também quis partir, cheguei a pedir ao Senhor para me levar, mas acredito que ainda não era o tempo.

Antes desse pedido, chorei novamente de saudades de você. Sinto que, se você estivesse aqui, muita coisa teria sido diferente. Algumas dores e traumas não teriam existido, talvez outras vivências e situações tivessem tomado o lugar, e mudado completamente a história da nossa família. Nesse dia chorei de saudade, chorei pelo desejo pela vida que sua amada esposa não enxerga mais valor, chorei por uma filha mais nova que já quis ter o mesmo fim e chorei pelas histórias que nunca tivemos a chance de viver contigo — como uma ida ao parquinho em Serra Sede, que já não existe mais, mas é muito perto da minha casa. Chorei pois você não teve a oportunidade de entrar comigo no meu casamento, se emocionando ao som de “Sorriso Resplandecente” e sorrindo para mim e meu marido. Chorei pois a minha irmãzinha assinou os documentos de entrada de seu casamento, e onde era necessário colocar as suas informações ela colocou apenas o seu falecimento. Chorei pois a minha mãe não consegue entender porque tem tido tantos dias na terra, questionando a Deus sobre isso, quando quem queria viver era você. Chorei porque ter uma pessoa querida tomada de você, do mais absoluto nada, te deixa com um luto cheio de questionamentos e “e se’s”.

O meu último momento chorando por ti foi escrevendo essa carta, porque eu tenho tentado viver bem, na maior parte do tempo eu consigo, tenho seguido com as tarefas e compromissos do dia, tenho cuidado (agora com mais equilíbrio) das minhas pessoas e de mim, tenho me alimentado bem e colocado para fora aquilo que me aflige, porém tem dias que isso tudo não ameniza a confusão, cansaço e questionamentos quanto a vida. Tem dias que penso que, verdadeiramente, você está no melhor lugar e talvez fosse bom eu estar aí, mas então lembro que meu tempo aqui ainda tá contando, que ainda terei muitos cultos para cantar e lembrar de ti, além de muitas experiências para viver em seu lugar.

De qualquer forma, eu te amo, sinto sua falta todos os dias, me perdoe pela demora, eu só não sabia por onde começar.

P.S.: eu não uso mais o cordão com a sua palheta, mamãe me deu, como presente de casamento, um dos últimos presentes que você deu para ela, um pequeno cordão com um coração e um anel com pontinhos vermelhos. Talvez agora, com dois corações pertinho e pontinhos vermelhos no dedo, esteja com lembranças suas mais próximas.

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